A nuvem e a rua


Deixa eu te contar uma coisa sobre sonhar: você não pode fazer muito isso. Você não pode sonhar demais. Você não pode. Acredite em mim, meu bem. 
Crie asas, mas só se for pra pousar no céu. Ah, e não fique muito tempo por lá, porque o céu é bonito demais, é azul demais, tem nuvens demais mas a gravidade vai te puxar, puxar, puxar até que você volte para o chão. Daí você vai se lembrar de como é ter os pés grudados no asfalto da sua rua e vai sentir saudades do bonito, do azul, das nuvens.
Bom, deixa eu te contar mais uma coisa sobre sonhar, meu bem: uma hora você se esquece onde mora. Se é na nuvem ou na rua.
Não que a rua seja de todo ruim. Tem umas árvores que floresceram esse mês. Algumas vermelhas e outras cor de rosa. Gosto delas, mas não quero que sejam a coisa mais bonita daqui.
Lá da nuvem eu te vejo, sabe? E você é a coisa mais bonita do céu, da terra, do azul e de todas as cores e lugares que existem, menos da minha rua.
Pelo menos quando chove eu nos sinto. E água é condutor de amor também, sabia? Acho que é por isso que quando a gente ama, a gente chora. As vezes chora de rir, as vezes chora de dor, mas chora. E a grande questão disso tudo, de sonhar, de pousar no céu, de te ver lá de cima, é que as vezes te vejo bonito, mas chorando. Depois eu choro também. E quem chora por último, meu bem, chora maior.
Então, quando sentir vontade de sair sonhando à torto e à direito por aí, se lembre das minhas instruções. Não se preocupe com as turbulências. Elas serão o seu sinal pra voltar. Mas muita calma nessa hora, porque em caso de decepção, máscaras individuais de realidade cairão automaticamente. Puxe uma delas para liberar o fluxo, coloque sobre o nariz e a boca, ajuste o elástico e respire normalmente. Ou não.
Só não se preocupe de não chegar lá em cima. É melhor que um de nós fique com os pés no chão.

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