Fazia tempo que eu não pensava em você

Foto: David Boldery

Fazia tempo que eu não pensava em você.
Tá bom. Mentira. Eu sempre penso em você. Sempre não, mas naqueles momentos clichês, quando estou cozinhando aquela mixaria que só eu vou comer, ou quando acordo de madrugada para beber água e percebo que não preciso andar na ponta dos pés porque não há ninguém ali que possa acordar com o barulho do meu chinelo batendo no chão de taco do corredor.
Tem aqueles dias também que chego estressada em casa, com vontade de jogar tudo pro alto e chorar até dormir. Daí resolvo tomar banho naquela grande banheira velha, cor-de-rosa desbotado, lembra?
Pois é. Eu desligo as luzes e ligo três ou quatro velas, só para iluminar o essencial e não acabar caindo no chão molhado do banheiro enorme. Abro a torneira de água quente e sento na beira para olhar o volume de água aumentando lá dentro. Algumas gotas ali acabaram vindo dos meus olhos. Do meu olho direito, na verdade.
Se lembra disso também? Acho que só você me conhecia o suficiente para saber que, quando eu estou chorando de tristeza, as lágrimas descem mais pelo olho direito. "Parece chuva escorrendo por um lado só do muro", você dizia. Eu achava engraçado, mas nunca me atrevi a rir disso.
A água enche até o topo, eu entro nela e derramo alguns-demasiados-abundantes litros no chão. E aí eu penso no seu rosto. No seu cabelo, principalmente. Tão liso que a mão escorregava entre as mechas compridas e dava uma sensação gostosa. Pareciam fios de algodão. Tão cheirosos, que o perfume ficava nas minhas roupas por dias e dias.
As velas vão se derretendo enquanto eu vejo o seu rosto e sorrio sozinha nesse banheiro já escuro. 
Lembro do gosto do seu abraço. É, do gosto sim. Um gosto bom de doce, de felicidade. Sei lá. Me acho brega por pensar em você assim. Mas é isso que ficou de ti para mim. Doçura. E felicidade. E o cheiro do seu cabelo.
Às vezes fico imaginando que você vai reclamar da pouca comida nas panelas, do barulho que faço às três da manhã para beber água, ou que simplesmente vai abrir a porta do banheiro e brigar comigo pela demora no banho. "Vai ficar com pele enrugada de velhinha!". E se acabava naquela risada deliciosa de se ouvir ecoando pelo cômodo, depois pela casa inteira.
Pois é, eu sempre penso em você, mas é mentira.
Na verdade eu sempre espero por você. Mesmo que sua volta seja outra grande mentira.


Para Daniel Carvalho.

Um comentário

  1. Ai, que vontade de chorar! Que lindo texto, que linda história! Apaixonei *-*
    Beijo

    www.lilasesol.com

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