Rendida



– Sabe, meu bem? Eu estava pensando se o motivo dessa minha confusão é você ou se sou eu mesma.
Mas acho que não é nenhuma das opções anteriores.
Tem esse passado meu, você conhece bem. Tal fantasma me apareceu nessa madrugada mas não me assustou. A confusão depois dele é que o fez.
Não que eu não ame cada linha do seu sorriso e cada gesto frenético que seus braços fazem na tentativa de provar que estou errada sobre o seriado que está passando na TV. Na verdade eu adoro quando você faz isso. E adoro mais ainda esses desenhos perfeitos ao redor da sua boca quando eu me rendo falsamente às suas acusações.
Mas, sabe? Começou a chover aqui. Eu estou na varanda respirando esse ar gelado e úmido e isso me fez lembrar quem eu era antes de você segurar a minha mão naquele dia frio de Junho. Lembra?
Minha mão era a de uma criança pedindo pra você me levar pra casa. Eu estava com medo daquela multidão à nossa volta. Medo de não estar no lugar certo, rodeada por pessoas que não eram as certas. E aí você apareceu.
O que me confunde é tentar entender se eu sou hoje quem eu deveria ser ou se sou assim só por que você me afastou daquele caos.
Entende o que eu quero dizer?
Talvez toda aquela insegurança era apenas a minha forma disfarçada de dizer "não me magoe, eu não poderia aguentar isso de novo" e olhe só para mim agora. Totalmente rendida ao dono da mão que me levou embora naquele dia. Totalmente desarmada, um alvo ambulante, só esperando para ser atingida.

– Mas, venha cá meu bem.
Não é isso que significa amar?

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