O tempo



Ela tentou se conter, sem sucesso. Por mais que quisesse não pensar, ela pensava, agonizava e parecia que eram 07h38 há duas horas, mas ainda são 07h39 e ele ainda não veio. Não ligou e nem deixou sequer uma mensagem.
As esperas costumavam ser ansiosas e felizes. A chegada e o abraço costumavam ter vida.
"Nossa vida", acabou dizendo em um tom agudo e alto que a pegou de surpresa.
Era a certeza. Certeza de que talvez a "nossa vida" pertencesse a um passado distante, que agora não faz mais sentido algum. Não tem verdade alguma.
Ela respirou fundo naquela tentativa vã de abafar o aperto no peito que agora a apertava por inteiro.
Fechou os olhos, involuntariamente, e na falta de um abraço e na sobra de apertos, o sono a abraçou com força.
Já eram 8h da manhã. Já eram doze horas de espera.

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Ele nunca foi de se atrasar. Sempre chegava cedo, ansioso por ver aqueles grandes olhos verdes sorrindo em sua direção e o tempo, que deveria ter levado cada sentimento ao quadrado, o subtraiu na rotina.
Morar a três mil quilômetros de distância nunca tinha sido um problema. E também não era o problema agora.
O problema é que ele não ligou, não mandou mensagem. Ele nem sequer comprou a passagem.
Ele não foi, mas todo o resto se foi, e já fazia algum tempo.
Mas como traduzir esse turbilhão de pensamentos e sentimentos desconexos em algo a se dizer?
Como colocar em palavras um fim que já vem sendo um fim desde o último encontro?
Sem saber responder suas próprias perguntas, ele resolveu não ligar, não dizer e não pensar em mais nada. Resolveu esperar as coisas serem. Apenas serem.
E nessa espera os dois não esperavam mais nada.
E se perderam.

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