Virando o disco

Letícia Sally Fotografia

Você costumava ser minha música favorita, meu momento predileto. Eu repetia você em minha mente o tempo todo em um looping constante.
Sua melodia agora ecoa no vazio que começa nos meus ouvidos e se espalha por todo o meu corpo.
Esse som agora é de um disco riscado. Deforma tanto a sua voz, que por falar nela eu não me lembro mais tão claramente.

É estranho pensar isso, mas você costumava mesmo ser minha canção favorita.
Mas estranho ainda é pensar que você costumava ser o meu amor (eu falei isso em voz alta agora e percebi o quão forte e triste essa frase soou).
Hoje eu queria te ver, mas só para te pedir que não cante mais para mim.
Por favor, não cante.
Eu não gostaria mais de ouvir sua voz doce e gentil encaixada tão perfeitamente nessa melodia que se chama "eu".
Você sempre foi a letra e a voz e o disco e o toca discos. E continua sendo.
Eu sou apenas a melodia, que sem letra, voz e algo que a faça soar, não faz sentido pois ninguém saberá como é realmente a música completa, muito menos a tradução.

É uma grande droga você continuar sendo minha música preferida.
Eu gostaria de não te ouvir mais, mas me pego cantarolando, sem querer, aquela parte que fala "...às duas e dezenove eu voltarei a viver, porque às duas e vinte você vai entrar por essa porta...".
É mesmo uma grande, grande droga você continuar sendo pra mim. E não é só a minha música, mas o meu ser favorito. O meu ser favorito em todo o mundo.
Mas eu vou te colocar na minha estante, juntos com os discos ruins. Quem sabe eu te confunda com um deles e coloque pra tocar, por engano, um jazz que nunca ouvira antes. Talvez eu até possa gostar de jazz. Ou talvez não.

Letícia Sally Fotografia

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