Um último diálogo

Ela nunca foi dessas de deixar o último pedaço do bolo guardado pra você. Ela também nunca deixou de colocar aquela música do Damien Rice que você odeia no último volume. E você vem dizer que está surpreso?
Ah, ela sempre morou em apartamentos pequenos demais com mobílias demais e talheres de menos. Sempre ocupou as paredes com fotografias antigas em quadros de gesso e você nunca percebeu que ela não conhecia ninguém naqueles retratos.
Ela não gostava do vazio, mas odiava quando você reclamava que não tinha copos e pratos e colheres de chá para mais que uma pessoa.
É, acho que nunca existiu espaço pra você, mas você nunca entendeu os motivos dela. Ela estava se conhecendo e, no final, não tinha forças pra conhecer você também. Era exaustivo demais.
Mas porque você está surpreso?
Desde o início você sabia que nada seria normal naquele apartamento, naquela mente e naquela repetição de "9 crimes" tocando os finais de semana inteiros.
Desde o início você percebeu que ninguém jamais conseguira ocupar o lado esquerdo da cama, quanto mais o lado esquerdo do peito.
Então pára. Por favor, pára.
Você sempre soube e ainda sim prefere se esvair juntamente com as cinzas de um corpo que nem em vida teve cores.
Agora eu estou sendo exatamente como você. Estou gastando todas as forças que me restam (e não são muitas) pra fazer com que você não se vá. Mas percebi há trinta segundos atrás, que você na verdade também já se foi e faz muito tempo.

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